Você já ouviu falar em claustrofobia, aracnofobia, tripofobia, agorafobia? Todas essas palavras representam algum tipo de medo: espaços apertados, aranhas, buracos, multidões. Mas e quanto a homofobia, você sabe como ela surgiu? Na verdade, trata-se de algo muito mais complexo que um medo e, por isso, fiz uma pesquisa sobre o tema e sobre a luta LGBT+ em busca de respeito e igualdade de direitos.

O que significa homofobia?

Antes de mais nada, acho importante conceituarmos o termo “homofobia”. Para isso, vou utilizar a definição de Daniel Borrillo no livro “Homofobia: história e crítica de um preconceito”: trata-se de uma forma de inferiorizar, desumanizar, discriminar, diferenciar e distanciar os homossexuais. Segundo o autor, a homofobia vai muito além das práticas preconceituosas e serve para nutrir todo um sistema de exclusão e dominação, ocorrendo de forma invisível, cotidiana e compartilhada contra todos aqueles que não se encaixem na ordem clássica heterocisnormativa.

Você também já pode ter ouvido falar na palavra “homofilofobia”, que alguns dizem ser o termo etimologicamente correto para designar o ódio contra a pessoa homossexual. O significado é o mesmo de homofobia, ou seja, quando falo em homofobia, estou incluindo todos os gestos de desprezo, aversão, discriminação e preconceito contra gays, lésbicas, travestis, transgêneros, bissexuais, ou seja, todo mundo que faz parte das letras LGBT+. Se você se perdeu, pode consultar essa publicação que explica cada uma dessas letrinhas.

Na sociedade, os comportamentos homofóbicos podem acontecer tanto de forma sutil, por exemplo, preterindo transgêneros em processos seletivos de emprego, quanto de forma expressa, por exemplo, piadas de mal gosto, xingamentos e agressões físicas. Porém, muitos governos ao redor do mundo continuam negligenciando a homofobia e a transfobia como se não existissem. Aliás, até hoje, alguns países consideram crime ser homossexual, dá para acreditar numa coisa horrível dessas?

Quais as origens da homofobia?

Olha, não existe uma resposta correta sobre como surgiu a homofobia, e sim muitos e muitos estudos sobre este tema. Para começo de conversa, a homossexualidade sempre existiu na história da humanidade e até então a relação entre pessoas do mesmo gênero era bem aceita. Podemos encontrar referências a relações homoafetivas na Grécia, na Roma e no Egito – se tiver curiosidade, pode assistir ao filme “Alexandre”, de 2004, que conta a história do conquistador macedônio Alexandre, o Grande, ou pesquisar um pouco sobre a relação homoafetiva entre os deuses egípcios Horus e Seth.

Como surgiu a homofobia: o preconceito vindo da Igreja

Em seu livro, Daniel Borrillo afirma que a homofobia surgiu junto às religiões judaico-cristãs, que aprofundaram a intolerância contra os homossexuais, condenados à fogueira e submetidos a todo tipo de violência devido à sua orientação sexual. Alguns historiadores apontam que a Inquisição contra a população homossexual estava ligada à lógica do comportamento reprodutivo, já que isso significava menos filhos, menos fiéis e, portanto, menos contribuições financeiras para a instituição. Dessa forma, a Igreja passou a taxar de satanismo qualquer desvio, buscando garantir a obediência inconteste a seus mandamentos. Até hoje, continua sendo frequente a utilização descontextualizada de trechos bíblicos, como se fossem condenações divinas à homossexualidade.

Como surgiu a homofobia: o preconceito vindo da medicina

Conforme o tempo histórico passou, a religião começou a perder um pouco de espaço para a ciência. Num primeiro momento, a medicina especializada em higiene passou a hostilizar a prática sexual, sobretudo as relações homoafetivas como responsáveis pela disseminação de doenças (até os dias de hoje, existe muito estigma com relação a doenças como a AIDS). Mais tarde, foi a vez da psicologia e da psiquiatria classificarem a homossexualidade como doença, dando força ao termo “homossexualismo”, que carregava a alcunha de um transtorno mental. E foram diversos os casos de homossexuais levados a manicômios e submetidos a tratamentos de eletrochoque e lobotomia na tentativa de uma “cura”. Por isso que a comunidade LGBT+ rejeita o termo “homossexualismo”, que traz consigo a ideia de que ser homossexual é uma doença e está profundamente relacionado ao surgimento da homofobia.

O começo de uma mudança

A partir de meados de 1960, começamos a ver um movimento inverso: diversos países passaram a descriminalizar a homossexualidade e novos estudos se debruçaram sobre a identidade sexual, gênero e orientação sexual. Com esses estudos, o termo “homossexualismo” foi gradativamente substituído, com a troca do sufixo do “ismo” (que significa doença) pelo “dade” (que significa modo de ser). Um dos maiores destaques foi o trabalho do psicólogo George Winberg, o criador do termo “homofobia”, que apareceu, pela primeira vez, na mídia no ano de 1969. Winberg sugeria que aqueles que nutriam preconceito contra homossexuais (e não mais os homossexuais) eram acometidos por moléstias psicológicas, por um estado irracional da mente.

Por fim, em 1990, finalmente a homofobia havia sido retirada da lista de doenças mentais da Organização Mundial da Saúde e, no ano seguinte, a Anistia Internacional passou a considerar a homofobia como violação dos direitos humanos. Nessa época, afloraram estudos provenientes dos mais diversos campos da psiquiatria, sociologia e antropologia, que passaram a estudar o comportamento homofóbico. Alguns desses estudos relacionam a homofobia com a projeção de sentimentos negativos por parte daqueles que ainda não definiram sua identidade sexual, como uma maneira de proteger sua masculinidade (podemos citar as contribuições da psicanalista Nancy Chodorow e do sociólogo Michael Kimmel). Ou seja, quando dizemos que muitos homofóbicos ainda não saíram no armário, temos respaldo científico que afirma que suas dúvidas, incertezas e revoltas se convertem em atitudes de preconceito e discriminação com relação aos membros da comunidade LGBT+ que já se aceitaram com relação à sua própria identidade.

Em busca de direitos iguais

Hoje em dia, tanto a Igreja quanto a medicina amadureceram, cada vez mais aceitando e entendendo a homossexualidade. Em 2008, a Santa Sé (leia-se, o Vaticano) manifestou-se pela condenação de todas as formas de violência contra homossexuais. Atualmente, vemos o Papa Francisco ❤️ nos defendendo, a legalização da união civil entre pessoas do mesmo gênero, além do próprio Conselho Federal de Psicologia condenando a “cura gay”. Está cada vez mais nítido que são os homofóbicos que possuem alguma patologia psíquica ao nutrir um ódio irracional pelo que é diferente, o qual, muitas vezes, se converte em violência letal para todo mundo que se identifica como LGBT+.

Apesar dessas conquistas, ainda temos um longo caminho a percorrer, especialmente em nosso País, que é campeão em quase todos os estudos acerca de homofobia e homicídios motivados pela orientação sexual. É ainda mais triste imaginar a quantidade de homofóbicos que agem de forma velada, discriminando de forma sutil até mesmo seus amigos e familiares. Esse número é infinitamente maior do que as estatísticas oficiais, basta contar o número de pais que não aceitam os filhos, empregadores que não contratam homossexuais, além de uma infinidade de brincadeiras de mal gosto com as quais a comunidade LGBT+ precisa lidar no seu dia a dia.

No Brasil, alguns estados e municípios já se adiantaram e adotaram um posicionaram de favorável à criminalização da homofobia, como o Estado de São Paulo. O próprio Supremo Tribunal Federal, em julgamento inédito, equiparou a homofobia ao racismo 🏳️‍🌈 No Congresso Nacional, está tramitando projeto de lei com objetivo de criminalizar a homofobia. E, com isso, a luta por igualdade continua.

Se, mesmo lendo esse artigo, você acha que a homofobia não existe, essa publicação do Buzzfeed pode te ajudar a mudar de ideia.

Nesta publicação, em que explico como surgiu a homofobia, não vou sequer promover produtos da The Pride. Se você chegou até aqui, peço que você faça um minuto de silêncio e pense em todas as vítimas da homofobia, em todas as pessoas que enfrentam o preconceito, nas pessoas transexuais que escutam as mais variadas ofensas só por ser quem são. Essa é nossa oração diária.

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