O que é a linguagem neutra de gênero

O que é a linguagem neutra de gênero?

Na última publicação, apresentei a série Todxs Nós, protagonizada por uma personagem não-binária. Nessa série, vemos diversos usos da linguagem neutra de gênero. Por isso, preparei um conteúdo especial explicando o que é a linguagem neutra de gênero, além de dar umas dicas de como usá-la corretamente.

Como funciona a linguagem neutra de gênero?

Uma das características da língua portuguesa, que aprendemos no ensino fundamental, é que muitas palavras variam em gênero. Entretanto, quero lembrar que eu estou falando do gênero gramatical, ou seja, feminino e masculino. Portanto, não confunda o gênero gramatical (palavras femininas e masculinas) com o gênero social (homem e mulher).

Além disso, todo mundo que já se aventurou na gramática já deve ter notado a predominância do gênero masculino nas palavras. Inclusive, há até dissertações de mestrado que falam sobre esse “sexismo gramatical”, como é o caso da pesquisa de mestrado apresentada por Guilherme Ribeiro na UFSC. Aliás, é até um retrato bem parecido com nossa sociedade, onde predominam padrões heterossexuais, cisgêneros e patriarcais e, também, onde existe uma forte desigualdade entre homens e mulheres.

Por isso, surgiu a linguagem neutra de gênero, que é uma tentativa de superar o binarismo de gênero na comunicação. Portanto, podemos dizer que a linguagem neutra de gênero é extremamente mais abrangente, respeitosa e inclusiva.

Por que usar a linguagem neutra de gênero?

Na prática, a linguagem neutra de gênero vai muito além de remover os artigos “o” e “a”. Afinal de contas, ela tem uma característica intrínseca de ser muito mais política e militante. No fundo, ela prega a igualdade entre todos, incluindo uma pluralidade de sujeitos e sem que um gênero prevaleça sobre outro.

Por exemplo, pense em uma vaga de emprego que está procurando por “engenheiros”. Será que uma mulher se sentiria bem de se candidatar para essa vaga e em trabalhar numa empresa onde, provavelmente, a masculinidade predomina? E quanto a uma pessoa não-binária? E um homem trans? Foi exatamente esse o aprendizado de uma empresa de desenvolvimento que passou a contratar “pessoas desenvolvedoras de software”, como você pode ler nessa publicação do Medium.

Na comunidade LGBT+, o uso da linguagem neutra de gênero acaba sendo muito mais amplo, porque permite se referir adequadamente a pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher. Nesse grupo, podemos citar pessoas não-binárias, gênero-fluidas, two-spirit, dentre outras. Dessa maneira, quando usamos a linguagem neutra de gênero, contemplamos, de de forma neutra e respeitosa, todos os indivíduos, em atenção à diversidade.

Por fim, vale lembrar que optar por usar a linguagem neutra de gênero nos ajuda a criticar o sexismo na linguagem e o patriarcado na sociedade, além de reforçar que todas as pessoas são iguais.

Dicas para se comunicar de forma mais inclusiva

Infelizmente, ainda não temos uma gramática para falar em uma linguagem não-binária, entretanto, temos algumas dicas essenciais para você se comunicar de forma mais inclusiva. Coletei muitas dessas dicas de um guia produzido na Rock Content e disponível neste link.

A linguagem neutra de gênero é feita para a diversidade
A sociedade é muito diversa e, pensando nela, precisamos usar a linguagem com forma de inclusão e respeito às identidades.

Dica #1 Neutralize as palavras usando a letra E

No uso da linguagem neutra, vejo muitas pessoas utilizando variações que usam X e @, como em “alunx” ou “menin@”. Entretanto, é muito recomendado que você opte pela letra E em lugar dessas opções. Em primeiro lugar, a leitura do seu texto se tornará mais fácil e mais fluida. Em segundo lugar, a palavra se tornará mais pronunciável. Dessa maneira, seu texto poderá ser acessível a pessoas que sofrem dislexia, pessoas cegas, dentre outras.

Dica #2 Evite colocar gênero em palavras que já são neutras

Na língua portuguesa, existem palavras que, por natureza, possuem apenas uma forma (os substantivos comuns de dois gêneros). Exemplos são as palavras “estudante” e “artista”. Nesses casos, podemos evitar o uso dos artigos para neutralizar o gênero. Assim sendo, em vez de falar que “os artistas fizeram uma live no YouTube”, diríamos apenas “artistas fizeram uma live”.

Dica #3 Evite artigos em nomes próprios

Já ficou em dúvida se é “o” ou “a” Pabllo Vittar? Se quiser, pode ler esse artigo aqui do blog com tema Pabllo Vittar. Ou pode não usar nenhum artigo. Basta dizer: “Acabei de escutar a música de Pabllo Vittar”. Por isso, opte por frases como “Conversei com Leonardo”, “Tenho um carinho enorme por Rafaela”. Sem artigos, você mantém a neutralidade, copiou?

Dica #4 Substitua estrategicamente as palavras do seu texto

Às vezes, em um texto longo, usar sempre a mesma variedade pode torná-lo um pouco entediante, não é mesmo? Por isso, podemos variações como “pessoas“, “seres humanos“, “indivíduos“, dentre outras. Com certeza, isso vai trazer uma leitura mais fluida para seu texto. Portanto, em vez de falar “os arquitetos possuem um forte senso estético”, você pode reescrever utilizando “pessoas formadas em arquitetura desenvolvem um forte senso estético”.

Dica #5 Use substantivos agregadores

Além disso, existem algumas situações em que nos referimos a uma coletividade. Nesse caso, a preocupação em evitar a generalização e adotar uma linguagem neutra são maiores. Portanto, nesses casos, uma boa ideia é utilizar substantivos coletivos ou palavras que servem como agregadoras. Em vez de dizer “os funcionários do Nubank têm um ótimo atendimento”, experimente “a equipe Nubank tem um ótimo atendimento”. Assim como, em lugar de “os alunos são muito bagunceiros”, tente “a turma é muito bagunceira”.

Adote já a linguagem neutra de gênero

Se você chegou até aqui, acredito ter despertado o seu interesse em se comunicar de forma mais inclusiva. Antes de mais nada, preciso avisar que o início não é fácil, afinal estamos quebrando paradigmas que são usados já faz muito tempo. Então, persista no uso da linguagem sem gênero mesmo que, no começo, pareça um pouco estranho, assim como todas as mudanças por que passamos na nossa vida.

Além disso, preciso te lembrar de que não existe um manual, apenas algumas orientações e dicas. Dessa maneira, lembre-se de pesquisar bastante, buscar referências, ler textos e praticar. É só assim que conseguimos consolidar nosso conhecimento e transformar a diversidade em hábito.

Então, você está esperando o quê? Com a prática, você vai perceber que é muito mais fácil falar e escrever pensando em neutralidade de gênero. A internet é um ótimo guia e contém diversos materiais gratuitos para você aprofundar seus estudos. Por fim, quero te lembrar que a sua criatividade será sua maior aliada, pois, muitas vezes, a solução para a linguagem neutra de gênero consiste em reescrever uma palavra pensando em um maior grau de entendimento e uma comunicação mais precisa.